Infertilidade: entenda o que é, as causas e saiba como lidar com o transtorno

Muitos casais ainda mantém o sonho de gerar filhos e consolidar uma família. Entretanto, a patologia é um problema real no Brasil e no mundo

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Resumo da Notícia

  • Muitos casais ainda mantém o sonho de gerar filhos e consolidar uma família;
  • Entretanto, a infertilidade é um problema real no Brasil e no mundo.
  • Pensando nisso, esse ‘Pra Saber’ traz várias informações sobre o transtorno, como: prevenção, tratamento e “cura”. Além, é claro, de muita esperança…

 

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Muitos casais ainda mantém o sonho de gerar filhos e consolidar uma família. E com as redes sociais acompanhamos tudo de pertinho. Do momento em que o casal começa a namorar até a construção da família e o crescimento dos filhos. Entretanto, as redes sociais escondem um problema real: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que um em cada dez casais em idade fértil têm algum tipo de dificuldade para engravidar. No Brasil, esse número chega a oito  milhões de casais.  

Mas afinal, o que é infertilidade?

Sou infértil, e agora? (Foto: Reprodução/ Pinterest)

A infertilidade é um problema de saúde pública e global, que foi definido em 1992 pela OMS como a incapacidade de engravidar em casais que não usam métodos contraceptivos após 12 meses ou mais.

De acordo com a Dra. Karina Tafner, ginecologista e obstetra; especialista em Endocrinologia Ginecológica e Reprodução Humana pela Santa Casa; e especialista em Reprodução Assistida pela FEBRASGO, esse não é problema especificamente feminino:  “A infertilidade pode resultar de um problema da mulher, de seu parceiro ou ser uma combinação de ambos. Sabe-se que 40% das vezes a infertilidade tem causa feminina, 40% causas masculinas e 20% causas mistas. Embora a infertilidade seja uma ‘dificuldade do casal em não conceber’, com frequência as mulheres são estigmatizadas e culpadas quando a gestação não ocorre”, completa. 

As principais causas de infertilidade feminina são alterações ovulatórias, como a síndrome dos ovários policísticos, alterações nas tubas ou trompas de Falópio, que podem ser causadas por endometriose ou doenças sexualmente transmissíveis, e alterações uterinas, como miomas. 

Para a Dra. Beatrice Nuto Nóbrega, médica ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana e  membro da  Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro, (SGORJ), “é importante lembrar que a idade feminina é um  fator de infertilidade, pois perdemos a qualidade dos óvulos com o passar dos anos, de forma ainda mais significativa após os 35 anos. Essa perda na qualidade dos óvulos aumenta a chance de formar embriões com alterações genéticas,  aumentando o risco de infertilidade, abortamento e filho com síndromes, como a Síndrome de Down”, explica. 

Contudo, a doutora ainda esclarece que a infertilidade se manifesta nos homens por meio da varicocele (presença de veias dilatadas no testículo), alterações hormonais (que podem inclusive ser desencadeadas pelo uso de anabolizantes), infecções do trato genital, fatores genéticos e doenças sistêmicas, como diabetes ou tratamentos de radio ou quimioterapia.

Segundo as especialistas, não existem sintomas específicos, todavia, algumas patologias causam sintomas como alterações menstruais na síndrome do ovário policístico (SOP) ou cólicas intensas como na endometriose.  Em alguns casos, o homem com infertilidade pode ter alguns sinais de problemas hormonais, como alterações no crescimento do cabelo ou na função sexual.

A ginecologista Karina Tafner ainda alertou que existem diversos estudos que concluem que  o tabagismo, o alcoolismo e uso de drogas ilícitas alteram tanto a fertilidade feminina quanto a masculina. 

Sou infértil. E agora?

Sou infértil, e agora? (Foto: Nik Shuliahin /Unsplash)

Segundo orientação médica, a primeira coisa a  fazer quando observamos a dificuldade para engravidar é procurar um médico especialista. “Casais que estão tentando sem sucesso devem procurar ajuda após 12 meses de tentativas ou, após apenas 6 meses de tentativas caso possuam algum fator que sabidamente pode atrapalhar,  como idade feminina, endometriose na mulher ou varicocele no homem”, explica a Dra. Beatrice.

“O primeiro, e mais importante passo para se alcançar a gestação é aceitar essa dificuldade e procurar um especialista. Quanto antes você procurar ajuda, maiores as suas chances de ter um bebê”, aconselha a Dra. Karina.

O acompanhamento psicológico também pode ser um caminho importante para que a pessoa possa se recompor. Para a psicóloga e psicanalista Talitha Nobre, membro do grupo freudiano do Rio de Janeiro, todo e qualquer trauma que aparece na vida e traz um comprometimento psíquico pode causar grandes transtornos. 

Para Talitha, os problemas psicológicos decorrentes da descoberta da infertilidade giram em torno de uma fantasia. “Muitas vezes a infertilidade vem como uma bomba, porque existe uma fantasia, até cultural, na maior parte dos casais de ter um filho. Isso ocorre até por uma parte de perpetuação da família, uma questão até narcisista de dar continuidade àquilo que você é”, explica. A psicóloga ainda avalia que cada casal tem uma construção em torno disso e a notícia da infertilidade pode cair como uma bomba nessa família e causar efeitos devastadores, tanto na esfera conjugal, quanto individual de cada membro. “De uma maneira geral, a gente pode considerar isso como uma quebra de uma fantasia, como uma impossibilidade de um desejo de se construir, o sujeito se sente impotente muitas vezes diante daquilo”, analisa. 

E se a infertilidade é uma quebra, o luto  precisa ser feito.  De acordo com Talitha, a psicologia  encara o luto em cinco fases. A primeira é a surpresa, normalmente o sujeito tem aquele primeiro choque e uma negação. O luto precisa de um tempo de elaboração e esse tempo vai depender de cada um. A segunda fase é a da raiva, onde nasce o sentimento de angústia, de frustração, de procurar um culpado. “E aí, nesse momento que pode existir algum tipo de conflito entre o casal”, pontua.

A terceira fase é a da negociação. Onde, por exemplo, a pessoa recebe um diagnóstico de infertilidade e  começa a barganhar com Deus e faz promessas para tentar negar aquilo. A quarta fase do luto é a fase da depressão, é quando a ficha começa a cair e quando a pessoa começa a entender o que está acontecendo. E por fim, em um quinto estágio é que  se chega à aceitação. Só depois de passar por todas essas etapas é que o enlutado consegue compreender o que aconteceu e aceitar perda. “Só depois que ele aceita é que ele consegue se organizar pra pensar em outro caminho, por exemplo, uma adoção ou uma fertilização assistida”, conclui. 

A especialista ainda alerta que os aspectos mais importantes e que mudam uma vida é o quanto a pessoa investe no seu acompanhamento psicológico, na elaboração desse trauma, desse luto e dessa perda . “Saindo da bolha, é possível encontrar uma solução ou um novo caminho”, finaliza. 

Existem tratamentos para quem deseja ser mãe?

Tratamentos para quem deseja ser mãe (Foto: Andre Adjahoe /Unsplash)

Claro! A tecnologia é tudo! Há 40 anos, casais que sofriam com a infertilidade só tinham uma solução: adotar. Hoje em dia, é possível não só adotar como gerar o bebê. O nascimento do primeiro bebê de proveta, em 1978,  mudou esse cenário e mostrou que a reprodução assistida poderia ser uma alternativa para pessoas com problema de fertilidade.  

Os anos se passaram e atualmente, mais de oito milhões de pessoas foram geradas por este procedimento, segundo dados divulgados no Congresso da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE, na sigla em inglês). Esses tratamentos são consideradas de baixa complexidade, porque acontecem na região do útero, ou induzem a ovulação. 

Outra opção é a Fertilização In Vitro (FIV), chamada de tratamento de alta complexidade, onde a fecundação, ou seja, a formação do embrião, ocorre no laboratório de reprodução assistida, fora do organismo feminino. Os óvulos são retirados do ovário, os espermatozódes são colhidos e ambos se unem manualmente. Após alguns dias, o embrião é transferido para o útero da mulher. 

Para a Dra. Karina, as taxas de sucesso dos tratamentos de Reprodução Assistida dependem de vários fatores: morfologia uterina, integridade endometrial, resposta ao estímulo ovariano, qualidade seminal, idade do homem, reserva ovariana, qualidade do embrião, laboratório utilizado, a causa da infertilidade e, o mais importante, a idade da mulher. 

Aconteceu comigo!

Aconteceu comigo! (Foto: Kelly Sikkema/Unsplash)

Luciene de Oliveira Derrien, tem 49 anos, é empreendedora e ficou mais de 10 anos no processo de construir uma família. A mulher  teve  pré-eclâmpsia em 2005, ao perder a filha em um parto prematuro. Após um erro médico, descobriu que não conseguiria realizar o sonho de engravidar. 

Foram 11 tratamentos sem resultados até o erro ser descoberto. Durante o processo, em 2011, Luciene e o marido Yves, decidiram adotar. Não demorou muito e Yann, um bebê de nove meses estava nos braços do casal. Mas o sonho de gerar um filho ainda dominava o coração da mãe, que em 2014 fez uma FIV. “Fiz apenas uma transferência de embriões, que finalmente resultou na gravidez de Lucas”, disse a mulher.

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De acordo com a mãe, o seu relacionamento foi muito abalado, mas se fortaleceu a cada conquista. Hoje, Yann tem nove anos e Lucas cinco. “Foi uma benção. Hoje tenho dois garotos, que dão muito trabalho, enlouquecem, mas também são a razão do meu viver. Não consigo imaginar minha vida sem eles. Eu me sinto realizada, sempre quis muito ser mãe”, contou Luciene.

Após conquistar a família dos sonhos, a mãe arriscou deixar uma mensagem de incentivo para outras famílias: “É preciso ser forte, ter coragem de arriscar, lidar com os resultados negativos, que são como golpes de faca… mas quando acontece [a gravidez], percebe-se que valeu a pena”.

Família de Luciene de Oliveira Derrien (Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal)

Érica Arruda, tem 41 anos, é Relações Públicas e também passou por uma situação parecida. Aos 26 anos, ela realizava um sonho: o casamento!  Entretanto, com 27 anos, a mulher descobriu a endometriose e fez uma cirurgia de reparo. Mas, aos  28 anos, Érica descobriu que tinha as trompas aderentes, o que impedia os espermatozoides de fazerem o seu caminho até o ovário.

“Eu sempre quis ter filhos. Então, esses dois fatores caíram como uma bomba na minha cabeça, pois os médicos estavam bem reticentes sobre a possibilidade de engravidar naturalmente. Mas sempre tinha esperança e infelizmente não aconteceu. Fazer tratamento era muito caro, por isso meu sonho começava a ficar mais longe”, explicou Érica.

Mas, um luto, acabou mudando a vida da mulher. Após a morte da avó, Érica recebeu uma herança. “Ela sabia da minha dificuldade e queria muito me ajudar, mas não tinha como na época em que estava viva. Acho que foi um sinal de que ela queria fazer isso por mim. Assim, por indicação de uma amiga, fui a uma clínica de fertilidade, e com o tratamento de FIV, fiquei grávida aos 32 anos”, explicou.

“Fiz uma primeira tentativa, com dois embriões, que infelizmente não deu certo. Aquele gosto amargo da impotência veio como um canhão. Chorei por uma semana. Toda a família, que estava ansiosa, ficou muito triste também”, explicou. “Mas, o médico foi um fofo. Ele chamou meu marido e eu para fazer uma sugestão: fazer uma nova tentativa, mas sem contar a absolutamente ninguém, e também sem injeção de hormônios. Seria como se eu engravidasse normalmente: ele colocaria outros dois embriões, que estavam congelados, no meu corpo durante minha fase fértil. E foi nessa tentativa que tudo deu certo e eu fiquei grávida de gêmeos”, comemorou. Atualmente, Lara e Lorenzo têm oito anos de idade.

Família de Érica Arruda (Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal)

Érica contou que foi difícil aceitar seu quadro de infertilidade, mas que sempre acreditou na medicina: “Eu ficava revoltada, pois para mim, ser mãe era parte do ciclo de vida de uma mulher. Eu não sabia que eu poderia ter esse tipo de problema. Sabe aquela sensação de impotência e frustração? De toda forma, nunca desisti! Fui a vários médicos, ouvi várias opiniões e, mesmo sendo negativas, sempre tentei afirmar a todos de que eu poderia ser mãe”, declarou.

“O meu marido sempre esteve ao meu lado. Todo esse desafio só comprovou que ele é o homem da minha vida e a chegada dos nossos filhos formou uma âncora para a nossa felicidade”, disse a mulher. Ao ser perguntada sobre a dor e a delícia de ter sido mãe, Érica desabafou: “Ser mãe é uma montanha russa de emoções, ainda mais em dobro! Felicidade em dobro, trabalho em dobro. Meus filhos são crianças muito especiais. Me ajudam, me acompanham, me entendem. Aprontam como toda criança, mas eles têm uma compreensão da vida que me impressiona. São sensíveis e sempre têm uma palavra para confortar. Com eles, tudo é uma hipérbole: choro rios de lágrimas de emoção, movo montanhas para ajudá-los, sou uma muralha para protegê-los”.

Muito animada, Érica ainda disse que teria mais um casal de filhos e que se sente realizada: “Com certeza, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Meus filhos são o meu porto seguro e com certeza me fazem uma pessoa melhor”.

Tratamento gratuito

É fácil perceber que não há limites ou obstáculos para se realizar o sonho de ser mãe. Entretanto, atualmente, um tratamento de reprodução assistida pode ultrapassar o valor de R$ 30 mil reais pela rede privada, o que torna o sonho de ter um bebê inviável para muitas pessoas. E o mais complicado, os planos de saúde normalmente não têm cobertura para FIV. Muitas famílias acabam entrando na justiça para conseguir custear o tratamento. 

Mas, aqui vai uma dose de esperança! Desde de 2012, o Sistema Único de Saúde (SUS), oferece o programa de reprodução assistida por meio de inseminação artificial ou por fertilização in vitro. Ou seja, casais que receberam o diagnóstico de infertilidade após dois anos tentando engravidar pelo método natural, têm o direito de acessar o tratamento pelo SUS. 

Contudo, é necessário paciência e disciplina. Além de ser um processo muito burocrático, são inúmeros formulários e datas a se cumprir. É um processo demorado. São quatro anos na fila de espera. 

São poucas clínicas no país. Então, verifique a possibilidade de realizar o tratamento no seu Estado. Em seguida,  vá a uma unidade de saúde com o seu cartão SUS, marque uma consulta e solicite todas as informações ao ginecologista. E por fim, peça encaminhamento para uma clínica de reprodução humana. Essa é a orientação da Secretária de Saúde. 

É importante lembrar que existem alguns critérios. A mulher deve ter entre 18 e 38 anos, não ter passado por mais de três cesáreas e não portar nenhuma doença infecciosa como hepatite ou HIV. Entretanto, após dar entrada no tratamento, o acompanhamento é absoluto. São consultas, palestras educativas, entrevistas individuais e atendimento psicológico. 

Junho:  mês mundial de conscientização da infertilidade

Mês de conscientização infertilidade (Foto: Christian Fregnan / Unsplash)

De acordo com a ginecologista, Dra. Beatrice, junho é um mês importante para se atentar ao tema, porque  a infertilidade é capaz de trazer sofrimento para muitas mulheres e famílias. “Precisamos entender que, apesar de muitas pessoas ainda terem vergonha de falar sobre isso, esse é um problema de saúde muito prevalente: até 15% dos casais podem apresentar dificuldade para engravidar. Além disso, a infertilidade parece estar aumentando nos últimos anos. No Brasil, o percentual de mulheres com dificuldade para engravidar subiu de 30% na década de 1980, para 40%. O aumento da infertilidade conjugal (feminina e masculina) deve-se, entre outras causas, ao aumento de infecções sexualmente transmissíveis, sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de álcool ou cigarro e também ao adiamento da maternidade”, explica. 

Para a psicóloga Talitha, o assunto é muito importante: “enquanto sociedade, a gente precisa falar mais sobre isso, discutir mais o tema e conscientizar as pessoas de que a infertilidade é um cenário possível e de que existem outros caminhos pra se ter filhos. Esse é um assunto que a gente fala muito pouco, que gera uma frustração muito grande, mas eu acho que é de extrema importância”.

Prevenção

Prevenção da infertilidade (Foto: Tai’s Capture/ Unsplash)

Alguns tipos de infertilidade são inevitáveis , inerentes ao nosso organismo. Mas, de acordo com a ginecologista Dra. Karina, há várias estratégias que podem aumentar as chances de gestar: “Ter uma alimentação saudável, livre de conservantes, corantes e produtos industrializados, praticar exercícios físicos regularmente, utilizar preservativos nas relações sexuais (para evitar doenças sexualmente transmissíveis),  evitar tabagismo, alcoolismo, uso de drogas ilícitas e extremos de peso, limitar a ingestão de cafeína e sempre realizar exames ginecológicos periodicamente”, finaliza.

Fontes: A Dra. Beatrice Nuto Nóbrega, médica ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana e  membro da  Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro, (SGORJ);  Dra. Karina Tafner, ginecologista e obstetra; especialista em Endocrinologia Ginecológica e Reprodução Humana pela Santa Casa; e especialista em Reprodução Assistida pela FEBRASGO e Talitha Nobre, psicóloga do grupo Prontobaby, psicanalista, membro do grupo freudiano do Rio de Janeiro.